A Cinderela Fetichista I: Verdades e Mitos em "Cinquenta tons de cinza"

  • A Cinderela Fetichista I

Verdades e Mitos em: Cinquenta tons de cinza

 

Pelo Psicólogo Maurício Amaral de Almeida

 

 

 

Obra: James, E. L. Cinquenta Tons de Cinza Ed. Intrínseca, São Paulo, 2011.

 

Aviso: Este texto contém detalhes da obra, incluindo o final do livro.

 

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A Resenha

 

Ana, ou Anastásia Steele, é uma tímida estudante de literatura, de 22 anos, que até o último ano da faculdade não havia se interessado por relacionamentos amorosos, dedicando o seu tempo principalmente à leitura dos clássicos da literatura inglesa.

 

Um dia, a colega de apartamento de Ana, a também jovem porém extremamente exuberante Kate, ou Katherine Cavanagh, estudante de jornalismo, editora do jornal da universidade, estando se sentido indisposta pede a Ana que faça em seu lugar a entrevista que ela agendara nove meses antes com o CEO da Grey Enterprises Holdings Inc, Christian Grey.

 

Este é o início de um relacionamento amoroso profundamente intenso entre Christian e Ana, esse relacionamento é emoldurado pelo mundo do fetichismo erótico através de um conjunto estruturado de práticas conhecido como BDSM.

 

 

A novela “Cinquenta Tons de Cinza”, a primeira da trilogia que se tornou conhecida como “Trilogia dos Cinquenta Tons”, é um exemplo típico das novelas românticas, um mercado de mais de um bilhão de dólares por ano, que vende mais cópias que qualquer outro gênero literário e que tem 95% das dos seus leitores do sexo feminino.

 

As novelas românticas femininas, segundo Meston e Buss1, seguem um padrão bem estabelecido e não é possível fazer uma análise desta obra sem considerar este modelo no qual a relação romântica entre o herói e a heroína é o centro da trama.

 

A heroína é sempre uma mulher com quem as leitoras possam se identificar e é, contraditoriamente, tão sexualmente irresistível que o herói da trama é literalmente controlado e levado a fidelidade afetiva e sexual devido a sua incontrolável paixão por ela.

 

O herói por sua vez é construído de forma a valorizar a conquista da heroína por apresentar todos os atributos que as mulheres em média, tanto entre as diversas culturas como na historia evolutiva da espécie humana, tendem a valorizar, ele é belo na aparência, com uma face, corpo e comportamento bem masculinos além de uma posição social muito elevada.

 

Todos esses aspectos aparecem na obra “Cinquenta tons de cinza”.

 

Christian Grey é tudo o que se pode esperar do melhor exemplar de um herói romântico, é belo, alto, moreno, com olhos azuis acinzentados, empresário multibilionário, extremamente bem sucedido, tendo construído sua fortuna sozinho, fabulosamente inteligente, cortês, misterioso, com segredos importantes a serem desvendados e impossivelmente jovem para tantas realizações.

 

Anastásia Steele também é uma personagem perfeitamente construída para ser a heroína deste romance, ela é jovem, tímida, delicadamente desajeitada, inteligente sem ser genial, sagaz, bonita mas não exuberante, filha de pais separados, que mesmo não sendo pobres, não podem prover à filha os mesmos confortos que sua grande amiga Kate, com quem divide o apartamento e por quem se sente levemente ofuscada. Ela é a mulher com quem a maioria das mulheres pode se identificar.

 

Após se conhecerem na entrevista na qual tanto Ana quanto Christian, demonstram claramente terem sido atraídos um pelo outro, surge, a pedido de Kate, uma oportunidade de reencontro para uma sessão de fotos com este empresário de sucesso que é facilitada pelo contato que Ana havia estabelecido com Chrisitan.

 

Nesta fase começa uma das marcas do relacionamento entre Christian e Ana que envolve uma quantidade enorme de presentes caros que se inicia com livros raros avaliados em milhares de dólares seguidos de um celular Backberry, um MacBook e um Audi, roupas além de outras demonstrações de riqueza como viagens de helicóptero e jatos particulares. Frente a todas essas demonstrações de poder a posição de Ana é sistematicamente, primeiro recusar veementemente, depois de alguma argumentação, que diversas vezes termina com uma afirmação de Christian lembrando que faz o que faz por que pode, ela acaba por concordar em aceitar o presente como um “empréstimo”.

 

O encontro seguinte se dá quando Ana está em um bar com os amigos da faculdade e bebe um pouco além da conta. Um antigo amigo dela tenta forçar uma situação e, bem a tempo, surge Christian que conseguiu localizá-la rastreando o seu celular, demonstrando, além de devoção incomensurável, inteligência e recursos que vão muito além dos financeiros e uma disponibilidade de tempo impossíveis para um CEO de um conglomerado empresarial como ele. Nesta noite ela leva Ana para o seu hotel troca a roupa dela, dorme com ela sem tentar nenhuma aproximação.

 

Esta noite dá início à uma sequência de eventos que Christian afirma serem os primeiros de sua vida, a primeira vez em que ele dorme uma noite inteira com uma mulher, a primeira vez em que ele leva uma mulher em seu helicóptero, a primeira vez em que ele apresenta uma mulher para sua família, e assim por diante.

 

É também a partir desse encontro que Christian revela a Anastásia aquilo torna este romance diferente de todos os outros da mesma categoria.

 

Christian se apresenta como um Dominador fetichista, explica a Ana que ele não se relaciona de nenhuma outra forma. Assim se inicia a descoberta de Ana, e da maioria das leitoras, do universo do fetichismo erótico, também conhecido como BDSM.

 

Christian conta que teve 15 submissas que o serviram antes dela, que nenhuma mais o serve e que ele é estritamente monogâmico.

 

Ele apresenta a ela um contrato detalhado a ser assinado por ambos contendo detalhes das exigências dele e dos direitos e deveres de cada um dos dois. Entre os termos do contrato estão a exigência de exames clínicos para garantir a saúde física e sexual de ambos, as práticas aceitáveis e as inaceitáveis, as palavras de segurança, os limites rígidos e os limites suaves, e um tempo de duração do contrato que pode ser estendido.

 

Neste mesmo encontro ele mostra o que ela chama de “quarto vermelho da dor”, um aposento repleto de equipamentos de torturas eróticas onde eles viriam a ter sessões de práticas.

 

Mais uma vez Christian abre mão de sua posição que exigia que o contrato fosse assinado antes que qualquer relação tivesse lugar, e termina por ter a sua primeira relação sexual com Ana, que era virgem até então, e mesmo assim tem uma performance sexual digna de uma mulher experiente.

 

Nas semanas que se seguem a relação se aprofunda, os encontros se tornam mais intensos, Christian e Ana se veem cada vez mais envolvidos. As experiências eróticas intensas se repetem e as revelações da vida de Christian vão aparecendo.

 

Surge a figura que Ana chama de “Sra Robinson2” uma mulher mais velha que teria iniciado Christian, ainda adolescente, nas práticas do fetichismo erótico. A existência da Sra Robinson, é uma presença incomoda na relação de Ana mesmo que ela nunca a tenha, de fato, encontrado.

 

As revelações da vida de Christian pintam um quadro de um menino abusado por uma mãe drogada que, ainda bem pequeno, é adotado por uma família que ele define como “perfeita”. Para conseguir aceitar o carinho Christian, já na adolescência, se relaciona como submisso com a Sra Robinson, experiência que ele vê como tendo sido a sua salvação e com quem aprende a se aceitar e a ser aquilo que se tornou. A partir de todas essas revelações Ana consegue entender um pouco mais os gostos de Christian entendendo que todo esse modo de ser fetichista é uma forma de “terapia” para uma história de abusos na infância e adolescência.

 

Tentando entender os limites das práticas e gostos de Christian, Ana se dispõe a ser punida e receber seis cintadas. Esta experiência marca Ana que sente não ser capaz de suportar este estilo de vida e abandona a relação. Assim termina o primeiro volume da trilogia, certamente a relação irá continuar e muitas aventuras são esperadas antes do final feliz da nossa Cinderela fetichista.

 

Verdades e Mitos

 

A obra “Cinquenta Tons de Cinza” seria simplesmente mais um romance erótico feminino se não fosse a luz que traz sobre o universo do fetichismo erótico. Mesmo seguindo o roteiro típico dos romances do mesmo tipo a obra tem o inegável mérito de apresentar diversos conceitos de forma muito precisa, algumas ideias, entretanto, carecem melhor esclarecimento ou detalhamento que serão apresentados a seguir.

 

BDSM: A sigla BDSM, que aparece nas pesquisas de Ana, e passa a ser usada sem maiores explicações é a junção de 3 outras siglas e significa:

 

BD( Bondage & Discipline) = aprisionamento e disciplina;
D/s (Domination & submission) = Dominação e submissão;

SM (Sadism & Masochism) = Sadismo e masoquismo.

 

BDSM também é o nome que se dá a comunidade fetichista, em particular no Brasil, que se encontra em festas e eventos fechados particularmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, havendo também encontros menos frequentes em algumas outras capitais brasileiras e no interior e litoral de São Paulo.

 

Dominante e submissa: Christian se apresenta como dominante e propõe que Ana seja sua submissa. Na comunidade BDSM estes papéis exitem de fato e podem ser exercidos por ambos os gêneros, assim há Dominadores, Dominadoras, submissas, submisso, Sádicos e masoquistas de ambos os gêneros além de uma infinidade de papéis específicos para pessoas que tem fetiches igualmente específicos. Os membros da comunidade habitualmente se apresentam deixando claro a posição a qual se propõe desde o início dos relacionamentos e mentir sobre a posição que se pretende assumir é considerado falta ética grave neste meio.

 

Palavra de segurança (Safeword): Uma ou mais palavras usadas para a submissa informar ao dominador sobre como esta se sentindo durante uma prática fetichista particularmente aquelas que envolvem dor. No livro Christian oferece Vermelho e Amarelo como palavras de segurança para Ana.

 

Spanking (traduzido no livro por “espancamento”): A prática de causar dor com finalidade puramente erótica ou de punir através da dor sem perder o aspecto erótico. Christian aplicou o spanking com as mãos em Ana com finalidade erótica uma vez e na cena fetichista final do livro aplicou um spanking de punição que mesmo preservando o sentido erótico foi mais intenso. Na vivência BDSM real nem sempre é assim, muitas vezes o spanking erótico pode ser muito mais intenso que uma prática para punição, mesmo assim o spanking de punição, ainda que erótico, tem um impacto punitivo devido ao contexto. É curioso saber que entre as submissas entrevistadas sobre a cena da punição de Ana houve um consenso que as seis cintadas contidas na cena foram consideradas uma prática muito leve.

 

Exibicionismo: Christian demonstrava prazer em exibir Ana. Embora o nome da prática não tenha sido explicitado no livro ela existe e se chama exibicionismo. Mandar a submissa ir a um evento sem calcinha, fazê-la se vestir de maneira sensual entre outras atividades são práticas típicas de quem tem esse tipo de fetiche.

 

Sexo em lugares diversos: Christian possuiu Ana sobre o piano, na casa de seus pais, mencionou o elevador. É muito comum que os fetichistas eróticos tenham prazer em praticar sexo em lugares diversos.

 

Contrato: O uso de contratos não é obrigatório mas acontece por vezes na comunidade. Os contratos, nestes casos, não costumam ter um formato semelhante a um contrato comercial nem há um acordo de sigilo assinado, também não é comum que as pessoas usem seus nomes de registro.

 

Normalmente cada membro da comunidade adota um apelido, chamado de nick (abreviação de nickname), que muitas vezes demonstra claramente a posição de cada um e pelo qual passa a ser conhecido.

 

As clausulas do contrato que Christian propôs para Ana, por outro lado, contém muitos aspectos comuns no dia a dia de casais fetichistas tais como: Controle das roupas que a submissa usará, da sua alimentação, preocupações com a saúde da submissa, da sua higiene íntima. É muito comum que a submissa seja proibida de ingerir qualquer tipo de drogas inclusive álcool3 e de praticar sexo com qualquer outro parceiro que não o seu Dominador. Outras exigências mencionadas no contrato proposto por Christian tais como a obrigação de fazer sexo sempre que demandado pelo Dominador, a obediência sem reservas e a preocupação com uma atitude respeitosa que reflita publicamente o poder e a Dominância do Dominador são, não só comuns, mas presentes em praticamente qualquer relacionamento estável na comunidade BDSM refletindo o cuidado que é esperado dos Dominadores para com suas submissas.

 

Limites rígidos e limites suaves (hard and soft limits): Limites rígidos são as práticas que a submissa considera como inaceitáveis, o que a agride de tal maneira que seria causa de termino da relação. Limites suaves são práticas que a submissa tem medo mas que ela aceita que sejam explorados. A definição dos limites e de como eles serão tratados são discutidos na fase inicial da relação que é chamada de negociação e o respeito aos acordos são levados muito a sério pelos fetichistas eróticos por estarem no contexto do SSC.

 

SSC: Embora a sigla SSC não apareça explicitamente no livro os conceitos que ela utiliza permeiam toda a obra.

 

SSC é uma sigla que significa São, Seguro e Consensual (em inglês Safe, Sane, Consensual). Este é o tripé básico da comunidade BDSM sem o qual nenhuma prática é considerada como parte do fetichismo erótico. Desta forma toda prática precisa ter essas três componentes.
Neste contexto São aparece em oposição a patológico, significa que as pessoas envolvidas devem ser mentalmente sadias, conscientes de suas ações, ter a idade legal para consentir em práticas sexuais e as práticas em si devem ser de tal natureza que elas também não seja consideradas patológicas.
Seguro é uma indicação que os envolvidos conhecem as práticas e tomaram todas as precauções para torná-las seguras. Novas práticas são estudadas muitas vezes por muito tempo antes de aplicadas e muitas vezes médicos, e outros profissionais da saúde, são convidados a opinar sobre as práticas.
Consensual é sem dúvida o elemento mais importante da tríade. A consensualidade é a garantia de que o que está sendo feito é da vontade de ambos e que os limites acordados estão sendo respeitados da forma que foram negociados. Nenhuma prática não consensual é aceita dentro da comunidade e a falta dessa consensualidade irá certamente causar a expulsão da comunidade.

 

Há lugares para se aprender essas coisas nos arredores de Seattle”: No Brasil não há lugares onde se possa pagar para aprender as práticas fetichistas, por outro lado se estimula que se busque aprender antes de se executar uma prática. Neste sentido os participantes mais experientes frequentemente auxiliam os novatos oferecendo explicações, cursos e workshops gratuitos.

 

Ele é doente”, “Isso é uma forma de terapia”: Frases como essas são pensadas, ou as vezes ditas, por Ana por todo o livro e existe uma conclusão implícita na obra que Christian é como é por ter sido abusado e sofrido muito na sua primeira infância.

 

Na verdade a comunidade BDSM Brasileira é composta, quase na sua totalidade, por pessoas produtivas e socialmente adaptadas, que trabalham, estudam, criam filhos e vivem como todas as outras. Pessoas que apenas tem nas erotizações alternativas a sua forma de amar e ser amado.

 

As relações fetichistas, ou relações BDSM, são formas de relacionamento afetivo ou erótico alternativos, são regidos, como foi visto neste artigo, por conjuntos de regras mais rígidos e mais claros que os relacionamentos tradicionais. Nem todas as pessoas têm apreciação por tais formatos de relacionamentos porém mais e mais pessoas têm encontrado nessas formas de erotização alternativa um caminho para uma vida afetiva cheia de cuidados, rica e intensa.

 

Sobre o autor

 

Maurício Amaral de Almeida, é psicólogo cognitivo, formado pelo Instituto de Psicologia da USP, e atende em seu consultório em São Paulo. Se dedica ha oito anos a estudar a comunidade fetichista brasileira, as formas alternativas de sexualidade e de relacionamentos afetivos.

 

Caso você deseje mais informações sobre qualquer desses assuntos entre em contato.

http:\\www.mauricioamaraldealmeida.com.br

 

Distribuição deste texto

 

Este texto esta sendo publicado sob as condições da Licença Creative Commons e pode ser distribuído livremente desde de que sem alterações e com a preservação do nome do autor.

 

São Paulo, 28 de Outubro de 2012

 

1Cindy M Meston e David M Buss Why Womem have Sex.

 

2Provável referência a música de mesmo nome da dupla Simon and Garfunkel sobre uma mulher bem mais velha e experiente envolvida com um homem mais novo e inexperiente

 

 

3O uso de drogas na comunidade fetichista é praticamente inexistente e o uso de álcool é muito inferior ao uso em ambientes sociais de outros tipos, particularmente porque muitos Dominadores e Dominadoras não tem apreciação pela perda de controle que tipicamente segue o uso de tais substâncias.

 

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